segunda-feira, 23 de março de 2009

A visita da velha amiga.

MACARRÃO DE CAFÉ COM MOLHO DE COGUMELOS
FRANGO AO MOLHO DE GENGIBRE E MAÇÃ COM ESPECIARIAS
CRÈME BRÛLÉE COM QUEIJO FRESCO DE LEITE DE CABRA

Eu não deveria ter atendido o telefone naquela noite. Há dias sonhava com um final de semana longe da cozinha e sabia que se levantasse o fone, tudo estaria perdido. Afinal, ninguém liga numa sexta à noite apenas para perguntar como você está. Cristiane disse não ter planejado nada para o sábado e que, como não nos víamos há semanas, resolvera passar a noite aqui em casa. Ela é companhia agradabilíssima, sim. Viajada, tem um repertório de histórias hilariantes. Porém, carrega a pecha de ser a pessoa mais oportunista do meu círculo de amigos. Eu explico. Por me conhecer tão bem, sabe que qualquer visitinha, inesperada até, enseja o anfitrião que mora em mim. Cristiane é muito boa de garfo. Por isso, logo após desligar o telefone, já me encontrava entre livros e recortes, sorteando algumas receitas que, entre tantas outras, esperavam pacientemente na fila para serem testadas.

- Ui. O que é isso? Raspa de limão? Ui. Nunca comi pão com raspa de limão. Ui.

Esclareci se tratar de uma receita de pão do livro do Richard Bertinet. Como recebo muitas vezes glutões aqui em casa, resolvi inaugurar o que chamo de ritual do pão. Sirvo um coquetel e apresento uma criação recém-saída do forno que, além de impressionar pelo sabor inusitado, acaba estofando o estômago dos convidados para o caso de um falso cálculo nas porções. Aliás, foi a última chance para por um fim na geléia de azeitonas pretas. É um quebra-gelo ideal e, com isso, tenho tempo de sobra para acertar os últimos detalhes do jantar. Enquanto eu salteava os cogumelos, pasmei ao notar a amiga debruçada sobre a tábua, picando cebola. Só interrompia sua função para enxugar as lágrimas e tasquinhar mais um pouco da geléia, abandonando a colher na boca como uma criança ao chupar pirulito.

- Ai. Esse molho não tem cogumelos, tem? Não falei que sou alérgica a alguns tipos de cogumelos? Eu não falei? Ai, ai.

Ensimesmada, Cristiane empurrava o molho marrom-claro para a borda do prato. O leve amargor do macarrão feito com café, perfeito contraste para o doce escondido nos cogumelos cremosos, esvaecia sobre o prato esfriado da minha amiga. Ela enrolava no garfo somente as tiras livres de vestígios do molho peçonhento. Essa amarga experiência a impediu de traçar qualquer comentário sobre o prato. Ao contrário, todo o tempo normalmente dedicado a bate-papo e elogios foi substituido por longos goles de vinho, a fim de lavar o dissabor daquele encontro, até ali, repleto de mágoa. Nem tudo, no entanto, estava perdido. O frango ao molho de gengibre e as maçãs com especiarias prometiam salvar a noite. Há muito tempo não me deparava com uma receita de tal harmonia de aromas. Planejei um roteiro minucioso de trabalho, de modo que nada atrapalhasse as duas horas dedicadas à preparação do molho, a quinta-essência daquele jantar.

- Cof. Cof. Eu não consigo respirar. Cof. Alguém me ajude, por favor. Cof. Cof.

Cristiane pigarreou e cuspiu longe. O anis-estrelado engasgado tintilou na garrafa de vinho do outro lado da mesa. Geralmente, distribuo sobre os pratos restos das especiarias usadas na preparação. Não faço isso apenas para decorar, mas também, para deixar claros vestígios dos ingredientes da receita. Isso, a meu ver, suscita a curiosidade e dá vazão à discussão. Mas não imaginava que a amiga, possuída por uma gula progressivamente aguçada durante o banquete, iria, cega, saciar sua fome nos ínfimos pedacinhos encontrados ali no prato. A noite iria acabar definitivamente quando perguntei, já da cozinha, se queria açúcar no cafezinho que acompanhava a sobremesa. Cristiane pediu três colheres! Foi aí que não senti mais o chão sob meus pés. A crème brûlée com queijo de leite de cabra fresco
não levava açúcar. Somente a pitada suficiente para compor o caramelo. O queijo levemente salgado, disfarçado num clássico da doceria francesa, seria a chave de ouro para encerrar nosso jantar de inversões. Mas sobremesa sem açúcar é excêntrico demais. Três colheres! Era o fim, o fim daquele jantar.

- Meu deus, que delícia. Adorei essa sobremesa. Me dá a receita?




14 comentários:

Bergamo disse...

Moustache,
Essa fala é sua? "Já ficou claro por aqui que sou apenas um curioso na cozinha?"....sei, sei, sei...
Adorei o jantar e até mesmo a peçonhenta Cristiane..ops..preçonhentos são os cogumelos...rsrs
PS.: vou me atrasar para o trabalho perdido aqui no s eu texto!!
Abraços,
Bergamo

Juliana Vermelho Martins disse...

Deixa essa Cristiane pra lá e me convida para o próximo jantar!!! Se esse é o jantar do improviso, eu imagino quando é planejado!!!!

Marina S.I.C. disse...

Que divertido seu blog! Também gostei das receitas!
Abç,

Ariel Pacífico disse...

O fim sempre nos reserva grandes surpresas... Macarrão de café?! Nunca havia visto, adorei a criatividade! Você sempre surpreendendo.
Abraços,
Ariel
Ps. Vou colocar o teu link lá no blog ok?

Joyce Galvão disse...

sem acúcar? uhhhh ousado! adoro isso!!!

acho que esta na hora de fazermos uma confraria dos blogs e jantarmos todos juntos algumas vezes... ai sim ia rolar sérias discussões...rs

beijos

Bergamo disse...

Estou com a Joyce...confraria de blogueiros!! Criteriosamente selecionados...rsrs
Abraços,
Bergamo

Marcelle disse...

Nossa essa idéia da Joyce é boa heim??? Nós leitores só não ganharíamos mais porque não poderíamos participar com garfadas dessas reuniões... agora essa história, me fez dar gargalhadas...me identifiquei quando depois de algumas horas de planejamento...um paladar mal informado, ou tomado por alergias põe tudo a perder...

Bergamo disse...

Moustache,
Está fazendo falta em nossa cozinha virtual!! Nos dê o ar de sua graça..rsrs
Abraços,
Bergamo

Bergamo disse...

Moustache,
Está td bem? Não postou mais nada, espero que td esteja correndo tranquilamente.
Um abraço,
Bergamo

Joyce Galvão disse...

cade vc? Estamos com saudades dos seus textos... :(

Bigode de chocolade disse...

Marcelle, a idéia é ótima. Mas eu tenho as minhas fases. Hoje, por exemplo, só estou a fim de lavar a louça. Obrigado por passar por aqui.

Bigode de chocolade disse...

Marina, Ariel, obrigado!

Bigode de chocolade disse...

Joyce e Bergamo, andei sumido, sim. Às vezes me tranco na despensa e me esqueço por lá. Obrigado, mesmo!, pelo carinho de vocês! Eu tento, eu tento voltar. Beijos!

Bigode de chocolade disse...

Juliana, pode vir! A Cristiane tem lugar cativo... você senta do lado dela?