A metade da minha vida já passou. Se nenhum infortúnio fatal cruzar meu caminho, terei pela frente um número de anos muito próximo ao do que já vivi. Por essa visão para lá de otimista, eu agradeço ao sangue robusto da família. E não seria difícil calcular o que me resta de vida realmente ativa. Preciso apenas traçar certos paralelos.
Investi dez anos para aprender a contar e a correr. Tantos assim, quando velho e relho, dedicarei a me perder entre o minúsculo apartamento e a quitandinha. Vai ser nessa hora certa que cumprimentarei os passantes com nomes de amigos há muito falecidos. Os anos entre meu décimo e vigésimo aniversários, consagrei aprimorando o caráter. Porém, e como é próprio da mocidade, nunca deixara de confiar o coração ao frenesi do amor. Levará um tempo assim, bem lá na frente e enfim, para que meu corpo trambolhão e o espírito já carecido de têmpera se habituem à ventura de uma jornada que se encerrará em perdas.
Encarei a vida como um banquete, para o qual fora o único a ser convidado. Derretidamente sentado à margem da grande mesa, provei de tudo aquilo ao alcance dos olhos e das mãos. Se foi sorte ou se estava escrito, não sei. Passou-se que, sem muito esforço nem mesmo rogo, saboreara o que meus amigos, ao longo dos tantos anos, nem imaginariam sequer existir. Provavelmente não estariam ainda por perto, se desconfiassem de minha habilidade nata em me deixar paparicar pela vida. E nunca me esforcei em lutar contra. O que, a princípio, era fruto de causalidade, acabou virando regra. Dali do trono de glutão, nenhuma iguaria aparentemente intacta escaparia de um belisco meu.
A graça acabou. Se o que me tornei é feito do tudo o que aprendi e das lembranças sobreviventes, eu poderia concluir, daí, que o encanto pela vida morreu. Ora, a lista já é longa demais e não apreço segunda porção de um mesmo prato. Mas mesmo não sendo dado a repetecos, se considerar os paralelismos com os quais esclareço a vida e a provável opção de me manter no planeta, eu não teria outra escolha, a não ser a de novamente repassar, item a item, o banquete já conhecido. Desta vez, porém, com a prudência e a moderação de um gourmand metido a buda. Ou, em outras palavras claras, com a erudição de alguém que envelheceu. Terei, portanto, que arredar a cadeira, levantar o traseiro morno e circundar a mesa. Do outro lado, tudo aparentará recente para as lentes de meus novos olhos. Do outro lado, nenhum sabor será apenas perpassado, pois haverá tempo para as nuances. Do outro lado, eu não serei mais o mesmo.


