domingo, 1 de março de 2009

Justiça seja feita.

RECEITA: MUSSE DE CHOCOLATE (MOUSSE AU CHOCOLAT) Para se produzir um bom musse de chocolate é preciso dedicação. Com um pouco de treino e aprendendo com os erros é que se encontra o ponto de equilíbrio entre as consistências opostas do chocolate e dos ingredientes líquidos. Mas o que diferencia um simples creme de chocolate de um verdadeiro musse, daquele que faz todo o burburinho da mesa se calar, é o ar escondido dentro da sobremesa. E sem um pouco de perspicácia ninguém alcança esse sucesso. Um detalhe do preparo é a atenção que se deve dar às temperaturas. Todo o líquido que for adicionado ao chocolate derretido precisa ter a mesma temperatura. Se estiver mais quente pode ser que a manteiga de cacau derreta, destruindo a emulsão; se estiver mais frio, vai talhar tudinho.

Eu passei por todas as fases. Desde a catástrofe de produzir algo impróprio ao consumo, que acaba na lata de lixo, até a redenção, que não é nada mais do que reconhecer o erro cometido e salvar a receita através de simples truquezinhos. Meu musse de chocolate chega a surpreender – me permita o lisonjeio. Preciso, no entanto, deixar claro que não me considero de todo responsável pela falta de êxito em algumas tentativas de produzir uma sobremesa fofinha. O erro, na verdade, não foi meu e não é de ninguém. O problema é a tradução, esse aportuguesamento da palavra francesa. É um pecado, praticamente um desrespeito que um clássico das sobremesas francesas carregue um nome como esse. Você não acha que a ausência do “o” faz uma tamanha diferença?
Um musse de chocolate não é nada mais do que uma sobremesa espumenta, algo melado que a língua pressiona contra o céu da boca; assim como o nome que carrega, é um alimento frívolo, indigno de ovação, coisa que não merece nenhum elogio além de um simples “é tava gostoso”. Já um mousse au chocolat se eleva através da sonoridade do seu título ao posto de iguaria. Ninguém diz que o chocolate é amargo, mas sim, acre. Ninguém diz que a consistência é espumosa. Aliás, não é preciso dizer nada. O arroubo provocado pelo mousse au chocolat é revelado pelo enlevamento dos olhos de quem vive a experiência e pelas feições um pouco coradas de êxtase.
Não vou dar um de despatriota aqui, acho que não há idioma mais lindo do que o português. Mas musse não cola. Tantas sobremesas brasileiras foram batizadas com nomes que fazem jus à preciosidade culinária que são. Alguém reclama do nome do suspiro? Um bem-casado não tem cara de outra coisa. Não há diferença entre o beijinho que se rouba de alguém e o que se descobre solitário entre brigadeiros de um bufê de aniverário. E o sonho, então?
Observando meus amigos se deleitando com o musse de chocolate é que encontrei uma possível solução para este problema, sem, no entanto, macular a receita francesa, e buscando respeitar a brasilidade em voga no momento. Durante a hora da sobremesa, afinei meus ouvidos e percebi um concerto de pequenos ruídos invadindo a sala. De olhos fechados, escutava os estalos que se davam com as línguas nos lábios. Som, aliás, muito parecido com o de um beijo. No meu mundo onírico, meus convidados não estavam comendo o musse, eles estavam, sim, trocando carícias.
Mas aviso: se você é dado a purismos, essa é a hora perfeita para mudar de blog. Pois bem, que tal muxoxo? Sim. Muxoxo de chocolate. Perceba que só a articulação da palavra muxoxo já provoca uma certa frouxidão labial, tal e qual é a sensação do musse se desmanchando na boca. Muxoxo. Muxoxo. Vamos, repita comigo: muxoxo, muxoxo. A língua titubeia em agir, nem sabe mais para que está ali. Assim como não sabe o que fazer quando disputa seu lugar com o musse na boca. Tente falar muxoxo encostando a língua no céu da boca. Viu? Não dá. Então, não achei o nome perfeito? Muxoxo, muxoxo de chocolate.

Muxoxo de chocolate (mousse au chocolat)
(do livro Die Grosse Schule des Kochens – Anne Willan)

Ingredientes para 4 porções
· 175 g de chocolate meio-amargo picado
· 4 colheres de sopa de café preto forte ou água
· 4 ovos separados, em temperatura ambiente
· 15 g de manteiga em temperatura ambiente
· 1 colher de sopa de rum ou 1 colher de sobremesa de essência de baunilha
· 45 g de açúcar refinado

Modo de preparo:
1. Derreta o chocolate com o café ou a água em fogo baixo, mexendo sempre. Deixe engrossar um pouco, mas que ainda escorra da colher.
2. Retire do fogo e acrescente uma a uma as gemas até atingir uma consistência cremosa. Adicione o rum ou a baunilha e mexa vigorasamente. Deixar esfriar até atingir a temperatura da pele.
3. Bata as claras, adicione o açúcar e continue batendo até fazer picos. Misture bem um terço das claras batidas com o creme de chocolate. Adicione o restante das claras e misture delicadamente.
4. Despeje em uma tigela ou faça porções individuais. Deixe na geladeira por no mínimo 2 horas. Decore com nata batida se quiser.

DICAS:
*Como o muxoxo é feito com claras cruas, deve permanecer até o consumo dentro da geladeira e não mais do que um dia. E pelo mesmo motivo também não é indicado para crianças.
**Já tentei fazer metade da receita mas o resultado não ficou bom. Se você fizer o dobro, opte por porções individuais pois o peso de uma porção muito grande acaba “achatando” as claras.
***Eu usei chocolate com 60% de cacau.


8 comentários:

Juliana Vermelho Martins disse...

Ai ai ai... tocou no meu ponto fraco. Aliás, em dois! No mousse e na língua. O mousse que toca na língua. A língua na qual é feita o mousse. Ih! Agora virou salada e nem é de fruta!

Tudo bem, concordo que "musse"... não dá! Não é a mesma coisa. Os nomes das sobremesas brasileiras são ótimos (e o que dizer de Toucinho do Céu ou papos de Anjo? Essas coisas não fazem engordar. Como pode engordar uma coisa que te manda direto ao paraíso?). Concordo também que a articulação da palavra, muxoxo, é perfeita... O problema, e aí vem o ponto pra mim, é a semântica...

Depois de 40 anos mergulhada nos livros, na literatura, sempre com uma boa iguaria pra acompanhar, não dá pra dissociar 'muxoxo' de uma expressão desagradável! Aiiiii Quando eu falo, quer dizer, leio - pq acho que jamais falei essa palavra - penso em alguém triste, de mal com a vida, achando alguma coisa ruim. E TUDO o que um mousse au chocolat NÃO É, é ruim!!! Céus! Anjos e toucinhos, venham em meu socorro!

Acho que, para me acostumar, terei de comer muxoxos sem fim, observando minha própria expressão de deleite no espelho e, assim, dissociar significado de significante (ou é o contrário? Jamais compreendi Saussure, por isso escolhi a literatura!)

Depois que conseguir essa façanha, te mando a conta do endocrinologista!

Bigode de chocolade disse...

Juliana, que nada! Muxoxo é, sim, uma palavra bem positiva. E para tornar o treino ainda mais efetivo, articule a palavra com a boca cheia de musse de chocolate. Assim você muda de opinião rapidinho. Obrigado.

Bergamo disse...

Muxoxo, muxoxo, muxoxo, muxoxo, muxoxo, muxoxo....
Abraxoxos,
Bergamo

Joyce Galvão disse...

Adorei! Me diverti muito com o texto... adoro blogs assim, que fazem a gente terminar de ler com a alma leve e vontade de ir pra cozinha!

Muxoxo...tá ai! Gostei do nome!

beijos

Ana Elisa disse...

Ah, não! Muxoxo???? Hahahaha! Chorei de rir... acho que nesse caso ainda fico com o nominho francês mesmo... ;)

Beijos!!

Bigode de chocolade disse...

Bergamo, acho que logo-logo isso vai ficar parecendo o xou da xuxa. Obrigado.

Joyce, adorei seu blog também.
Obrigado por passar por aqui.

Ana, não xora, não xora!

Juliana disse...

Ei! Onde entra a manteiga aí? Hahaha, estou louca para preparar um muxoxo bem fofo.

Bigode de chocolade disse...

Poxa nao é que esqueci mesmo... a manteiga entra logo que se tira o chocolate do fogo, antes das gemas. Importante mesmo é que esteja em desperatura ambiente. Muito obrigado.