sábado, 17 de outubro de 2009

A lista incompleta.

RECEITA: BOLO JULIANA DE CHOCOLATE E DAMASCOS. Escrevo pouco, o resto é texto roubado. Explico. É que dias atrás, me rompi de ciúmes. Perguntei a uma amiga se o meu lugar no seu coração continuava garantido. Um fulano – até que famoso – despontava definitivamente para o sucesso e acreditei estar perdendo terreno, condenado à insignificância. Que amigo ingrato, eu. Se existe alguém com um coração capaz de reproduzir amor progressivamente, esse alguém é a minha amiga. No dia seguinte à minha pergunta sem norte, uma avalanche de feitos meus e provas do amor por ela abarrotaram a caixa postal. Fragmentos que evidenciam uma amizade.

Por acaso, o beltrano que até é famoso e está despontando definitivamente para o sucesso...
... ja passeou de braços dados comigo pela Rua XV?
... já voltou a pé pra casa da rodoviária à praça do Japão num domingo à meia-noite?
... alguma vez fez um jantar pra mim com sopa de batata, jantar esse que prenunciava um futuro como chef de cuisine?
... já ensaiou peças de teatro para apresentar em encontro de jovens?
... já fez pra mim um desenho para o qual eu olho nesse momento e que está comigo há 21 anos?
... escreveu um "soneto de amor para Juliana" que contém em cada verso o que há de mais essencial sobre o amor?
... já me contou que era gay num sábado à tarde simplesmente me pedindo pra ver um filme?
... já viajou de ônibus comigo de Maringá à Curitiba, deixando que eu ficasse aninhada no seu colo?
... usou uma bolsa à tira-colo que eu acreditava conter os segredos do mundo?
... esteve alguma vez comigo no momento em que eu descobri que tinha passado na prévia para o vestibular de Arquitetura? ... conversou comigo por meio de enigmas que eu fiz de conta que entendia pra não parecer muito burrinha?
... sumiu da minha vida por um tempo, pra reaparecer depois, no momento em que eu mais precisava?
... trocou infinitas mensagens comigo, fazendo com que o livro das nossas vidas naquele período tivesse sido escrito sem sentir?
... esteve ligado a mim através da lua que une pelo céu dois lados de um oceano?
... me deu de presente um filme que me mostrou que o preço a pagar pela liberdade pode ser alto demais?
... desejou com tanta força me encontrar que provocou horas extras de trabalho entre os serafins o que fez com que uma passagem de avião caisse do céu?
... tem um raminho de lavanda colhido por mim?
... passou horas e horas nos cafés da cidade, vivendo momentos do mais puro hedonismo que existe? ... já me viu chorar de tristeza e pasmo e saudade e dor?
... participou comigo de planos de livros e mais livros, tantos que fariam a biblioteca de Alexandria parecer uma banquinha de esquina?
... respondeu ao meu apelo desesperado para me ligar num domingo em que eu achei que ia morrer de tristeza e humilhação?
... me liga quase todas as semanas e escuta as ideias às vezes brilhantes, às vezes sem pé nem cabeça que saem da minha cabeça em constante mutação?
... manda fotos das comidas maravilhosas que eu um dia experimentarei?
... identifica as casas do mundo que poderão nos abrigar no futuro?
... planeja envelhecer comigo e morar ao meu lado?
... compreende minha angústia de viver e consegue enxergar o mundo através dos meus olhos?
... representa a outra metade de mim que existe nesse mesmo mundo tão sem sentido?
... conhece meus segredos mais abjetos e ainda... e mesmo assim... me ama?
O que me falta nesse momento da vida são as palavras. As idéias de como continuarei a evidenciar meu amor por minha amiga, no entanto, já despontam incessantemente. E se você me permite, Juliana, sigo agora mesmo estendendo a lista que você começou.

E por acaso, o sicrano que até é famoso e está despontando definitivamente para o sucesso... inventou um bolo que sou eu metaforizada e que logo-logo vai cair na boca do povo?


FELIZ ANIVERSÁRIO, JULIANA.

Bolo Juliana de chocolate e damascos
(receita do Bigode de Chocolate)

Ingredientes:
Massa de gemas:
6 gemas de ovo
2 c. de sopa de água morna
100 g de açúcar
75 g de farinha de trigo
½ c. de chá de fermento químico
½ c. de chá de bicarbonato de sódio
25 g de cacau em pó
1 pitada de sal
25 g de manteiga derretida

Massa de claras:
6 claras de ovo
½ colher de chá de vinagre branco
1 pitada de sal
130 g de açúcar
160 g de açúcar de confeiteiro
100 g de farinha de trigo
1 c. de chá de essência de baunilha

Compota de damascos secos:

150 g de damascos secos
50 g de açúcar
Suco de meio limão
Modo de preparo:
Para a compota, corte os damascos em tiras finas. Em uma panela pequena, misture 50 ml de água com o açúcar e o suco de limão. Cozinhe até que o açúcar dissolva por completo. Tire do fogo e acrescente os damascos. Escorra assim que esfriar.
Pré-aqueça o forno a 180°. Forre o fundo de uma forma de anel removível de 26 cm de diâmetro com papel manteiga.
Inicie pela massa de claras. Peneire a farinha juntamente com o açúcar de confeiteiro e reserve. Bata as claras em neve. Antes que forme picos, acrescente o vinagre e o sal. Bata até formar picos. Adicione o açúcar aos poucos e continue batendo até obter um merengue firme. No último momento, acrescente a baunilha. Com uma espátula, misture delicadamente os ingredientes peneirados, um terço de cada vez.
Para a massa de gemas, peneire a farinha juntamente com o cacau, o bicarbonato, o fermento e o sal. Reserve. Bata as gemas, o açúcar e a água em velocidade máxima por 5 minutos. Adicione os ingredientes secos à mistura de gemas. Misture a manteiga delicadamente.
Espalhe a massa de gemas sobre a forma. Distribua os damascos sobre a primeira camada. Cubra com a massa de claras. Leve para assar por aprox. 45 minutos. Depois de esfriar um pouco, passe uma faca na borda da forma e retire o anel.
Dicas:
A massa de claras acabou abaixando depois que o bolo esfriou. Da próxima vez, vou distribuir a massa como uma cúpula. Talvez assim, os lados e o centro do bolo tenham a mesma altura.

segunda-feira, 23 de março de 2009

A visita da velha amiga.

MACARRÃO DE CAFÉ COM MOLHO DE COGUMELOS
FRANGO AO MOLHO DE GENGIBRE E MAÇÃ COM ESPECIARIAS
CRÈME BRÛLÉE COM QUEIJO FRESCO DE LEITE DE CABRA

Eu não deveria ter atendido o telefone naquela noite. Há dias sonhava com um final de semana longe da cozinha e sabia que se levantasse o fone, tudo estaria perdido. Afinal, ninguém liga numa sexta à noite apenas para perguntar como você está. Cristiane disse não ter planejado nada para o sábado e que, como não nos víamos há semanas, resolvera passar a noite aqui em casa. Ela é companhia agradabilíssima, sim. Viajada, tem um repertório de histórias hilariantes. Porém, carrega a pecha de ser a pessoa mais oportunista do meu círculo de amigos. Eu explico. Por me conhecer tão bem, sabe que qualquer visitinha, inesperada até, enseja o anfitrião que mora em mim. Cristiane é muito boa de garfo. Por isso, logo após desligar o telefone, já me encontrava entre livros e recortes, sorteando algumas receitas que, entre tantas outras, esperavam pacientemente na fila para serem testadas.

- Ui. O que é isso? Raspa de limão? Ui. Nunca comi pão com raspa de limão. Ui.

Esclareci se tratar de uma receita de pão do livro do Richard Bertinet. Como recebo muitas vezes glutões aqui em casa, resolvi inaugurar o que chamo de ritual do pão. Sirvo um coquetel e apresento uma criação recém-saída do forno que, além de impressionar pelo sabor inusitado, acaba estofando o estômago dos convidados para o caso de um falso cálculo nas porções. Aliás, foi a última chance para por um fim na geléia de azeitonas pretas. É um quebra-gelo ideal e, com isso, tenho tempo de sobra para acertar os últimos detalhes do jantar. Enquanto eu salteava os cogumelos, pasmei ao notar a amiga debruçada sobre a tábua, picando cebola. Só interrompia sua função para enxugar as lágrimas e tasquinhar mais um pouco da geléia, abandonando a colher na boca como uma criança ao chupar pirulito.

- Ai. Esse molho não tem cogumelos, tem? Não falei que sou alérgica a alguns tipos de cogumelos? Eu não falei? Ai, ai.

Ensimesmada, Cristiane empurrava o molho marrom-claro para a borda do prato. O leve amargor do macarrão feito com café, perfeito contraste para o doce escondido nos cogumelos cremosos, esvaecia sobre o prato esfriado da minha amiga. Ela enrolava no garfo somente as tiras livres de vestígios do molho peçonhento. Essa amarga experiência a impediu de traçar qualquer comentário sobre o prato. Ao contrário, todo o tempo normalmente dedicado a bate-papo e elogios foi substituido por longos goles de vinho, a fim de lavar o dissabor daquele encontro, até ali, repleto de mágoa. Nem tudo, no entanto, estava perdido. O frango ao molho de gengibre e as maçãs com especiarias prometiam salvar a noite. Há muito tempo não me deparava com uma receita de tal harmonia de aromas. Planejei um roteiro minucioso de trabalho, de modo que nada atrapalhasse as duas horas dedicadas à preparação do molho, a quinta-essência daquele jantar.

- Cof. Cof. Eu não consigo respirar. Cof. Alguém me ajude, por favor. Cof. Cof.

Cristiane pigarreou e cuspiu longe. O anis-estrelado engasgado tintilou na garrafa de vinho do outro lado da mesa. Geralmente, distribuo sobre os pratos restos das especiarias usadas na preparação. Não faço isso apenas para decorar, mas também, para deixar claros vestígios dos ingredientes da receita. Isso, a meu ver, suscita a curiosidade e dá vazão à discussão. Mas não imaginava que a amiga, possuída por uma gula progressivamente aguçada durante o banquete, iria, cega, saciar sua fome nos ínfimos pedacinhos encontrados ali no prato. A noite iria acabar definitivamente quando perguntei, já da cozinha, se queria açúcar no cafezinho que acompanhava a sobremesa. Cristiane pediu três colheres! Foi aí que não senti mais o chão sob meus pés. A crème brûlée com queijo de leite de cabra fresco
não levava açúcar. Somente a pitada suficiente para compor o caramelo. O queijo levemente salgado, disfarçado num clássico da doceria francesa, seria a chave de ouro para encerrar nosso jantar de inversões. Mas sobremesa sem açúcar é excêntrico demais. Três colheres! Era o fim, o fim daquele jantar.

- Meu deus, que delícia. Adorei essa sobremesa. Me dá a receita?




Frango ao molho de gengibre e maçã com especiarias

(adaptado do bookazine Feinschmecker n. 14)Ingredientes e modo de preparo para 4 porções:

Frango ao molho de gengibre
· 1 frango inteiro
· 4 colheres de sopa de óleo de girassol
· 1 cebola pequena
· 1 cenoura descascada de aprox. 50 g
· 1 dente de alho
· 1 colher de sobremesa de farinha de trigo
· 1 folha de louro
· 1 cravo da índia
· 5 pimentas do reino
· 200 ml de vinho do porto
· ½ litro de vinho tinto seco
· 1 litro de caldo do frango
· 1 colher de sobremesa de gengibre descascado e cortado em tiras bem finas
· 10 g de manteiga gelada

1. Corte as coxas, as sobrecoxas e o peito do frango e reserve. Corte o restante em pedaços menores. Pique cebola e a cenoura.
2. Em um panela, aqueça 2 colheres de óleo e frite a carcaça do frango. Acrescente a cebola e a cenoura e frite até dourar.
3. Acrescente o alho e a farinha e deixe dourar.
4. Adicione o louro, todos os temperos e o vinho do porto e cozinhe em fogo médio, mexendo de vez em quando até evaporar quase todo o líquido.
5. Adicione a metade do vinho tinto e cozinhe até que reduza pela metade. Acrescente a outra metade e deixe reduzir até a metade de novo.
6. Adicione o caldo de frango, o bastante até que cubra toda a carcaça. Deixe cozinhar lentamente até reduzir. Repita a operação algumas vezes.
7. Passe tudo por uma peneira fina, apertando bem a carcaça. Despeje o molho em uma panela pequena e deixe cozinhar até adquirir uma consistência espessa.
8. Pré-aqueça o forno a 150°. Esquente duas colheres de óleo restantes em uma frigideira. Tempere as partes reservadas do frango com sal e pimenta e doure rapidamente por todos os lados.
9. Leve ao forno por 15 minutos para terminar de assar.

Maçã com especiarias
· 50 g de manteiga
· 30 g de mel
· 4 anises estrelados
· 4 cápsulas de cardamomo
· 1 colher de sobremesa de semente de coentro
· ½ pau de canela
· 2 maçãs azedas
· 100 ml de vinho branco

1. Descasque as maçãs, retire o miolos e corte em fatias de 1 cm de espessura.
2. Aqueça a manteiga com as especiarias. Acrescente as fatias de maçã e deixe caramelizar.
3. Acrescente o vinho e deixe reduzir por completo. Retire as maçãs e coe o molho. Mantenha aquecido.

Finalização:
1. Acrescente as tiras de gengibre ao molho e deixe ferver por um minuto. Retire do fogo, acrescente a manteiga gelada e mexa vigorosamente com um batedor.
2. Distribua o frango e a maçã sobre pratos pré-aquecidos, cubra com o molho, decore com anis estrelado e sirva.

DICAS:
*Esse molho é uma delícia e foi feito de maneira tradicional. Mas você pode poupar essa trabalheira, fazendo uma redução de vinho do porto, caldo de frango e temperos. Você pode também comprar o frango já em pedaços.
**Se fizer com um frango inteiro, cuide para que cada pessoa receba pelo menos um pedaço do peito.