sábado, 5 de dezembro de 2009

Julie, eu e Julia.

KIR MOLECULAR

PÃOZINHO PORTA-TABACO

SOPA DE CEBOLAS GRATINADA

BOEF BOURGUIGNON

TATINS DE BISCOITOS AMANTEIGADOS

Se você é um dos que assistiram ao Julie e Julia, das duas, uma. Ou você abandonou a sala de cinema e foi direto à cozinha. Ou se sentou na frente do computador e escreveu um post. Acredito ter agido como a maioria. Mal entrei em casa, já peguei o bloquinho e fui conferir o estoque na despensa. A lista de compras que resultou no jantar afrancesado nem foi das mais longas. A sofisticação do preparo, a alma da culinária francesa, se sobressairia à simplicidade dos ingredientes. Afinal, seria possível fazer milagres com produtos isentos de toda a vaidade, como cebolas e maçãs, por exemplo. Nesse caso, contudo, estaria mentindo se não afirmasse ter sido a nobreza de certos ingredientes o que elevou o simples jantar à categoria de celebração. Foram a manteiga e o vinho de qualidade os componentes-chave da preparação. A manteiga rodeou os sabores e os manteve unidos desde a primeira ideia até a degustação. O vinho se encarregou de dilacerar o agrupamento de sabores, devolvendo à matéria a sua origem etérea para, enfim, subir às nossas cabeças.

Uma amiga me disse que alongo demais as palavras. Tanto blá-blá não pertence a um blog culinário. Em parte, acredito que esteja errada, pois cozinho pra valer antes de me sentar aqui e meu esforço justifica o palavrório. O filme me motivou a cozinhar para os amigos e, mesmo após a realização do jantar, ainda me sinto no embalo de dizer algo sobre as Julias. Saí do cinema encantado com a performance de Meryl Streep. Parece ser uma unanimidade. Existe algum papel que não lhe caia bem? Mas o motivo pelo qual escrevo é outro. E não foi pelo pingo de constrangimento do aprendiz de gourmet que devorou pipocas de papelão enquanto Julia Child soltava hum-hum, deliciando-se com queijos franceses. Não. O motivo ainda é outro. Confessar não é difícil, pois como você, você e você, eu sofro do mesmo mal de uma geração que vê a exposição pessoal como moeda corrente no mercado do voyerismo digital. Eu estou falando é daquela menina, a que escreveu um blog que virou livro que virou filme. Blog que não visitei, livro que não li. Acabei no cinema por conta do marketing pesado e por causa da Meryl. A tal da Ofélia americana, a qual levava vida enfadonha em Paris, eu nem conhecia. Pelo visto, soube aproveitar as oportunidades que a vida lhe ofereceu para - com muito empenho, precisa-se dizer - transformar-se num ícone da cultura culinária americana.

Aquela menina me irritou. É, não tenho papas na língua. Por outro lado, não me vexo em revelar essa hostilidade, pois me parece que ela é tão grande quando minha identificação com a história da blogueira. Pura inveja, eu sei. Seu desejo era escapar da armadilha do aborrecimento diário. Sua meta, um tanto peculiar, ininterruptamente perseguida por 365 dias, era a de ser lida. E é isso que buscamos, ou não? O que ainda me pergunto é o que lhe restou depois de todo o esforço. Ela se transformou em uma verdadeira apreciadora do mundo gourmet? Mergulhará em uma nova aventura literária, dessa vez como uma crítica de restaurantes disfarçada? Ou viverá de hambúrgueres um mês todo para mais tarde panfletear contra o méqui? Não, pois a tinta dessas ideias nem secou. A senhora Child não só assimilou as técnicas da cozinha do país que já admirava, como também ajudou a divulgar uma nova cultura culinária pela América que, já naquele tempo, desaprendia a mastigar. A blogueira irritante, ao contrário, não fez mais do que copiar aquela que já havia copiado. Os tempos são outros e talvez não haja mais espaço para tanta originalidade. Procurarei, portanto, manter meu empenho diante de uma nova busca de objetivos. Resta saber apenas se estarei copiando as pessoas certas.


Kir molecular

(adaptado de cuisinemolecular.com)

Isso é só uma brincadeira, uma experiência inofensiva do menino que ganhou um kit de laboratório no aniversário. A gastronomia molecular é assunto bem mais complexo do que se pensa e acho que vai levar ainda um tempo para que mergulhe de cabeça nesse tema. Por enquanto, fico no aperitivo. O kir royal original, que também é uma delícia, é bem mais simples: 2 cl de crème de cassis em 150 ml de champanhe. Tintim.

Ingredientes para 4 a 6 coquetéis:

  • 100 ml de crème de cassis
  • 100 ml de água mineral sem gás
  • 2 g de alginato
  • 5 g de cloreto de cálcio
  • 1 litro de água de torneira
  • 25 ml de crème de cassis misturado com 25 ml de água de torneira

Modo de preparo:

  1. Misture bem o crème de cassis, a água mineral e o alginato. Deixe descansar na geladeira por 2 horas no mínimo ou, de preferência, por 12 horas para que não sobre nenhuma bolhinha.
  2. Dissolva o cloreto de cálcio com a água de torneira.
  3. Retire o preparado de cassis da geladeira e deixe que atinja a temperatura ambiente. Mexa delicadamente. Preencha uma seringa ou uma bisnaga de bico fino com o preparado de cassis.
  4. Pingue as gotas na solução de cloreto de cálcio, ajustando a altura da queda para garantir um resultado perfeitamente esférico. Não deixe no banho de cloreto por mais de 4 minutos. Com uma escumadeira, transfira as esferas de cassis para a mistura de crème de cassis e água. Você pode armazenar na geladeira por até dois dias.
  5. Com uma escumadeira, distribua as esferas em taças com champanhe gelado.

Pãozinho porta-tabaco – Pain tabatière

(Grand Livre de Cuisine, Alain Ducasse)

Aí está mais um pão que fiz com fermento natural de maçã. O nome é um tanto estranho mas o pãozinho se parece mesmo com uma tabaqueira. Se precisar distrair seus convidados enquanto ainda está ocupado na cozinha com os últimos detalhes de um prato, sirva esse pão. Como já comprovei, o pessoal vai se divertir por um bom tempo, abrindo a tampinha para verificar se há miolo lá dentro. Ninguém se decepciona, pois essa massa é repleta de sabor.

Ingredientes:

Modo de preparo:

Faça bolinhas de 50-60 g. Com o auxílio de um rolinho, achate um terço da massa da bolinha. Enfarinhe. Cubra a bolinha com a parte achatada. Deixe crescer por 2 horas no mínimo, caso você use a massa que eu indico. Asse em forno pré-aquecido a 220°.